American Gods e a Mitologia

A série que foi ao ar em 1º de maio de 2017, pelo serviço streaming da Amazon Prime Video, conquistou os fãs e admiradores do escritor Neil Gaiman. Inspirada no romance literário Deuses Americanos (2001), foi adaptada para Tv pela Starz, após o cancelamento da produção via HBO em 2014. Bryan Fuller e Michael Green, juntamente com Gaiman, produziram uma série que nos permite a inserção num mundo mágico e surrealista, onde divindades, entidades mitológicas e seres humanos convivem no mesmo universo.

Uma das abordagens mais pertinentes da série retrata a troca de espaços no imaginário coletivo, no que diz respeito a religião e a religiosidade. A ressignificação da crença e a substituição dos velhos deuses pelos novos é a trama que gira em torno do ex-presidiário incrédulo Shadow Moon (Ricky Whittle). De cunho niilista, a série demonstra que a existência dos deuses só são na medida em que acreditamos neles. Mas será mesmo que as divindades e a religião são somente uma construção do imaginário? Esse é um dos pontos mais intrigantes, uma vez que o incrédulo Shadow tem que lidar com acontecimentos metafísicos ao seu redor.

Mas afinal, quem é o verdadeiro deus americano?

Para além de todo drama e mitologia surrealista da série, perceberemos no decorrer do enredo uma crítica intensa sobre a morte da religião através das modificações sócio-culturais. A perspectiva do autor em abordar deuses de um panteão relativamente antigo e “esquecido”, nos demonstra que a América não foi formada somente por cristãos protestantes anglo-saxões, mas por diversos povos com diferentes crenças e religiões. A substituição do velho pelo novo, do que necessitamos dedicar nosso tempo, por aqueles que necessitamos para viver em sociedade, transforma-se numa crítica para a nossa sociedade atual. Logo, fica o questionamento: God bless America? What God?

Os Deuses:

Mr. Wednesday

Irreverente e perspicaz, o personagem de Ian McShane, deixa pistas desde o primeiro episódio de quem ele é. Mr. Wednesday é a representação do deus nórdico Odin, deus da sabedoria, guerra e morte, trazido pelos vikings para a América do norte muito antes do que se imaginava. Quebrando assim, o famoso conto da carochinha de que Colombo descobriu um novo continente em 1492 d.C.. O nome do personagem na série faz referência ao dia de Woden ou dia de Odin, dia no qual é dedicado para esse deus desde os tempos remotos pelos povos nórdicos. Mr. Wednesday mostra-se ao desenrolar dos episódios ao lado dos corvos Huginn (Pensamento) e Munnin (Memória), responsáveis por serem os seus mensageiros.

 

Czernobog

Czernobog (Peter Stormare) é um deus da mitologia eslava, deus negro ou deus das trevas, representa o mal num mundo dicotômico ao lado de seu irmão Bielobog, representante da luz e do bem. Chegou na América por meio dos imigrantes eslavos nos séculos XVII e XVIII. Na série é representado juntamente a um machado, porém, na mitologia eslava ele não o possuía. Tudo indica que o martelo faz referência aos Benders Sangrentos, uma família de serial killers que chegou a matar ao menos 12 pessoas em sua pousada no Kansas, no século XIX. As mortes ocorriam após uma martelada no crânio, muito semelhante às explicações do deus eslavo para Shadow Moon.

 

Irmãs Zorya

Entidades da mitologia eslava, participam na série ao lado de Czernobog, na série três, na mitologia são duas as irmãs responsáveis por vigiar o cão do juízo final Simargl, acorrentado a estrela Polaris, na constelação Ursa Menor. Uma responsável por observar durante o dia e a outra durante a noite, ambas são as Auroras guardiãs da antiga crença eslava. Juntamente com Czernobog, a crença chegou a América durante as intensas migrações nos séculos XVII e XVIII.

 


Easter

Deusa pagã anglo-saxã, Ostara ou Eostre, é a deusa representante da primavera, da fertilidade, da ressurreição e do nascimento. Com o advindo do cristianismo, o significado de seu dia foi tomado pela comemoração da ressurreição do Cristo judaico-cristão. Ainda assim, a presença dos ovos e do coelho durante o período de Páscoa é presente devido o sincretismo religioso. Na série, percebemos o caráter forte deste sincretismo presente nos dias atuais, onde comemorações a deuses diferentes passam a existir em um mesmo dia, mas com significados diferentes, muitas vezes podendo até ser uma mistura de crenças e práticas, sem o total conhecimento de causa. As comemorações do equinócio de verão vieram para a América junto com os imigrantes pós século XVII.

 

Bilquis

Deusa que surgiu na região da Etiópia, conhecida também como Rainha de Sabá, é a deusa do amor. A deusa aparece em livros sagrados judaico-cristãos e islãs, como a Rainha com quem o rei Salomão teve um filho. Na série, a personagem interpretada por Yetide Badaki mostra a trajetória do envelhecimento dos deuses perante o esquecimento e a falta de adorações, demonstra o processo em que os deuses deixam seus postos de adoração e passam a ser visto como meras estátuas antigas em museus com suas mais diversas representações. Bilquis, ratifica na série que para além do esquecimento existe o preconceito, a misoginia e o machismo, muito presente não só entre divindades, mas também entre nós, meros mortais.

 

Mr. Nancy

Mr. Nancy representa uma divindade do oeste africano, Anansi. O deus é encarnado por uma aranha, é o deus da trapaça, que sempre se opõe a vontades dos outros deuses. Sua chegada na América deu-se através dos navios negreiros, através dos povos escravizados que o cultuavam. Na série, o deus africano faz sua primeira aparição quando clamado por um de seus fiéis, então promove a “libertação” de seu povo através da rebelião e sacrifício em pleno oceano, onde conta o quanto a população africana irá sofrer com a escravidão e que mesmo após o fim dela, o racismo e o preconceito promoverão em massa vítimas remanescentes desses povos.

Mr. Jacquel e Mr. Ibis

Representantes do panteão egípcio, temos o Mr. Jacquel como o deus Anúbis e o Mr. Ibis como Tot. Anúbis é o deus dos mortos na mitologia egípcia, responsável por pesar o coração dos mortos, na balança da justiça contrapondo com a pena da verdade e encaminhá-los para seus destinos de acordo com sua vida terrestre. Tot, representado por uma cabeça de Íbis, é o deus do conhecimento, da música, da magia e da escrita; considerado pelos egípcios antigos como o inventor da escrita. Nada mais sugestivo para esses dois personagens do que serem donos de uma casa funerária. A bem da verdade, os egípcios não migraram para as américas em tempos pretéritos, mas percebemos uma forte influência da cultura na segunda metade do século XIX e no início do século XX. Com as recem descobertas arqueológicas no Egito muitos curiosos e estudiosos migravam em viagens para pesquisar, estudar e trazer as relíquias encontradas nas escavações.

 

Mad Sweeney

Mad Sweeney é um Leprechaun. Um Leprechaun não é bem um deus ou uma entidade divina, mas sim um espírito irlandês, representado como um duende que tem entre 30 a 50 cm de altura. Não necessariamente traz sorte aos humanos, mas sempre retribui àqueles que se lembram de deixar suas oferendas. A crença e a cultura irlandesa vieram principalmente entre os imigrantes do século XIX.

Jinn

Nem deus e nem homem, os Jinn ou Gênios pairam numa classe intermediária entre essas duas categorias de seres, na mitologia árabe. São entidades que podem ser vistas como anjos ou demônios. Segundo arqueólogos estudiosos do Oriente Médio, eles são tidos como qualquer espírito inferior a um deus. Estima-se que sua primeira aparição e criação tenha sido em 2 mil a. C., onde possuíam elevada posição no Paraíso. O Jinn da série é um Ifrit, ou seja, um nascido do fogo, é um espírito diabólico. Para além dos Ifrits, existem mais outros três tipos de Jinn: Ghul, Si’la e Marid (única categoria de Jinn benigno).

Curiosidades:

  • Mad Sweeney em nada se parece fisicamente com as representações dos duendes irlandeses, pois nosso na série tem 1,96m de altura.
  • O deus eslavo Czernobog inspirou muitos compositores, dentre eles está o compositor russo Mussorgsky e sua composição Night On Bald Montain (1867).
  • Na Comic Con de San Diego em 2016, foi revelado que a série deverá ter ao menos 3 temporadas.
  • Existem teorias de que o Shadow Moon possa ser o deus nórdico Balder, filho de Odin e Frigga.
  • Estima-se que os vikings tenham chegado em solo americano por volta de pelo menos 11 mil a.C.
  • É possível encontrar no Alcorão uma passagem que retrata quando um Jinn se encontra com a deusa Bilquis, a mando do Rei Salomão.

Eai, qual dos deuses presentes na série você gostaria de conhecer mais? Comente abaixo e não esqueça de acompanhar o Crítica Criativa no Facebook. 

Jemerson Vieira

Jemerson Vieira

Um publicitário que adora tudo sobre séries, inovação e empreendedorismo. Fundou o Cri-Cri para quebrar padrões em críticas e estar sempre atualizado nas coisas que ama!